domingo, 16 de agosto de 2009

Pesquisa do Instituto Butantan usa saliva de carrapato-estrela contra câncer

Foto: Instituto Butantan

Da saliva do carrapato-estrela (Amblyomma cajennense) podem sair novos medicamentos contra o câncer, além de anticoagulantes. (Foto: Instituto Butantan)

Da saliva do carrapato-estrela (Amblyomma cajennense), a ciência conhece apenas os efeitos nocivos. A febre maculosa, doença muitas vezes fatal, é transmitida pela picada do aracnídeo. Da mesma substância, porém, podem sair novos medicamentos contra o câncer, além de anticoagulantes. Há seis anos, pesquisadores do Instituto Butantan, em São Paulo, trabalham no desenvolvimento de uma droga que possa ser utilizada com as duas finalidades. O prognóstico é animador.

A pesquisa – ainda não publicada – foi um dos destaques no 22º Congresso Internacional da Sociedade de Trombose e Hemostasia, realizado em Boston (EUA), em julho. “Imaginávamos que a saliva do carrapato tivesse algum componente que inibe a coagulação, pois, como hematófago, precisa manter o sangue fluindo para se alimentar”, explica a farmacêutica Ana Marisa Chudzinski-Tavassi, coordenadora do estudo.

Partindo dessa suspeita, a pesquisadora analisou a sequência de genes da glândula salivar do carrapato, responsável pela produção de uma proteína anticoagulante. Os resultados foram comparados à ação de anticoagulantes conhecidos como TFPI (presentes na saliva humana). A conclusão foi que a proteína presente na saliva poderia ser produzida em laboratório. Um pedaço do DNA analisado foi introduzido em bactérias Escherichia coli que passaram a secretar a mesma proteína. “Elegemos esse clone e produzimos a proteína recombinante”, explica Ana Marisa.

O resultado do estudo transformou-se em um pedido de patente, depositado em 2004, no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). No entanto, em pouco tempo, Ana Marisa descobriu que a pesquisa renderia mais do que um futuro anticoagulante.

Fatal para tumores, inofensivo para células normais
Testando a proteína em células de vaso sanguíneo para medir seu nível de toxicidade, descobriu-se que a substância é segura para células saudáveis, mas fatal para células tumorais. O experimento foi então extendido a camundongos que tiveram melanomas (câncer de pele) induzidos, e o resultado surpreendeu os pesquisadores.

Proteína tem atividade altamente citotóxica para células tumorais. (Foto: Instituto Butantan)

Tratados durante 42 dias com a proteína, os tumores dos camundongos apresentaram reversão completa. “Testamos em culturas de células tumorais e a surpresa foi positiva, pois a proteína tem atividade altamente citotóxica para elas e não para células normais”, explica Ana Marisa.

Algumas das explicações que os cientistas buscam agora são como funciona a ação pró-coagulante de alguns tipos de tumores – como o melanoma e o de pâncreas – e a inibição de mecanismos de divisão celular. “Essa relação é um grande achado, pois quando você retira sangue desses tumores pode ver ele coagular ainda na seringa”, diz a pesquisadora do Butantan.

Interesse da indústria x burocracia
O estudo segue em fase pré-clinica, ou seja, ainda passará por mais testes antes de ser aprovado para experimento em humanos, mas já despertou o interesse da indústria farmacêutica. Os laboratórios BioLab, Aché e União Química formaram um consórcio para a produção de futuros medicamentos que podem surgir a partir da descoberta.

Ana Marisa, no entanto, não demonstra otimismo. Segundo ela, o entrave burocrático para transformar a pesquisa de base em um produto desistimula os cientistas e impede que novos medicamentos cheguem ao mercado. “O Instituto Butantan não tem autonomia para assinar patentes e o processo burocrático é longo”, afirma. “Por outro lado, a indústria questiona por que investir em algo que não tem segurança jurídica.”

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Pesquisa mostra que depressão aumenta risco de doença cardíaca em mulheres

As mulheres que apresentam um quadro de depressão após os 50 anos têm um risco maior de sofrer do coração mesmo quando não têm, previamente, os fatores de risco tradicionais para as doenças cardiovasculares.

O estado depressivo já foi ligado às doenças cardíacas nos homens, porém o impacto das alterações psíquicas na saúde cardiológica das mulheres nunca havia sido estudado até agora. A descoberta está baseada na análise de dados de uma ampla pesquisa realizada pelo governo americano, voltada para a saúde das mulheres.


Durante quatro anos, em média, os pesquisadores estudaram mais de 90 mil mulheres, que foram avaliadas para presença de depressão no início do estudo e quanto ao aparecimento de doenças cardíacas e sua relação. Os resultados mostraram que as mulheres que tinham um diagnóstico de depressão ao entrar na pesquisa mostraram também 50% mais chance de desenvolver doenças cardiovasculares.


Mesmo quando eram levados em conta os fatores de risco para doenças cardíacas, a depressão estava ligada a um risco aumentado de ter um infarto ou acidente vascular cerebral. A importância dessa pesquisa está no fato de que a depressão pós-menopausa é muito comum e muitas vezes negligenciada pelas mulheres e infelizmente por seus médicos. A identificação dos sintomas depressivos e seu tratamento adequado podem diminuir a ocorrência de eventos vasculares cardíacos e cerebrais.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Garoto que 'não tem fome' se alimenta por tubo no estômago

Foto: BBC Foto: BBC

O pequeno Joe Bell (Foto: BBC)

A família de um garoto britânico de dois anos que nasceu com uma disfunção rara - a falta quase total de apetite - está fazendo uma campanha para tentar conscientizar outras pessoas sobre o problema.

O garoto Joe Bell, de Aspatria, no condado de West Cumbria, norte da Inglaterra, tem hiperinsulinismo congênito, decorrente da produção excessiva do hormônio insulina pelo pâncreas. Com isso, os níveis de açúcar no corpo caem a "níveis perigosos". A disfunção pode ser fatal. A família diz que precisa alimentá-lo três vezes ao dia através de um tubo no estômago, porque um dos efeitos colaterais do hiperinsulinismo congênito é "praticamente" uma ausência de fome.

"Desde o primeiro momento em que nasceu, ele nunca se interessou pela amamentação", disse a mãe de Joe, Vicky Bell. "Depois de algumas horas no hospital, os níveis de açúcar no sangue dele foram testados e eram praticamente imperceptíveis." Vicky contou à BBC sobre a dificuldade de alimentar seu filho, e como os médicos chegaram à conclusão de que o tubo estomacal era a melhor solução.

"Nos primeiros dez meses depois que saímos do hospital, ele tinha um tubo que descia pelo nariz até o estômago para alimentá-lo, porque simplesmente não tinha fome", relatou. "Mas ele continuava tirando o tubo, por isso os médicos acharam melhor que o tubo passasse pela barriga." Segundo Vicky, "agora tudo é muito natural, e Joe aceita tudo que fazemos".

Esperança
A mãe disse que, hoje em dia, Joe já está se acostumando a, simplesmente, engolir a comida, mesmo que não tenha fome. Ela tem esperança de que o filho "se livre" do problema no futuro.

Vicky organizou um evento, a ser realizado em agosto, para levantar recursos para o Children's Hyperinsulinism Fund, que financia a pesquisa e promove a troca de informações sobre o hiperinsulinismo na Grã-Bretanha. Joe está sendo tratado em dois hospitais diferentes, o Great Ormond Street, em Londres, e o Royal Manchester.

A enfermeira especialista do hospital infantil de Manchester, Linsey Rigby, disse que o hiperinsulinismo é "controlável" com o paciente em casa, mas que achar uma solução pode requerer "um longo período no hospital, para que os médicos encontrem a melhor maneira de gerenciar a condição da criança".

"Talvez seja necessária uma cirurgia ou talvez a criança tenha de tomar uma série de medicamentos em casa", ela afirmou. "Mas é pedir demais que os pais administrem toda a medicação que prescrevemos."

domingo, 5 de julho de 2009

Transmissão da nova gripe pode ser mais lenta do que a da gripe normal

Em meio ao temor crescente envolvendo o avanço da nova gripe, uma boa notícia: ao menos por enquanto, a nova versão do vírus H1N1 é relativamente "lerda", tendo dificuldade para invadir as células do sistema respiratório humano. Perto de outros vírus da gripe, ele ainda não "sabe" realizar esse truque com muita eficiência.

Foto: Divulgação

Estrutura característica da 'carapaça' do vírus (Foto: Divulgação)

A conclusão é de uma equipe conjunta do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, em artigo na revista especializada "Science" desta semana. A análise molecular do novo vírus, bem como o estudo de sua dinâmica de transmissão entre cobaias, trouxe um certo alívio.

Ram Sasisekharan e seus colegas do MIT verificaram que o novo H1N1 tem alguma dificuldade para se ligar aos receptores ("fechaduras" químicas que servem de porta para o vírus) do trato respiratório. Além disso, em experimentos com furões -- mamíferos cuja infecção pelo vírus é muito parecida com a humana --, a transmissão da doença também se mostrou ineficiente, em especial quando os bichos não estavam muito próximos uns dos outros.

Embora as conclusões sejam animadoras, os pesquisadores alertam que é preciso continuar monitorando o vírus, uma vez que novas mutações podem tornar sua transmissão mais eficiente.

sábado, 27 de junho de 2009

Estudo mostra peso negativo do consumo de álcool para a saúde mundial

Foto: Reprodução

Bebida recreativa é, infelizmente, apenas um dos lados da moeda (Foto: Reprodução)

Embora o uso de álcool ainda seja muito aceito e até incentivado socialmente no mundo todo, seus efeitos negativos para a saúde são, em geral, tão ruins quanto os do cigarro. Uma em cada 25 mortes no planeta podem ser atribuídas ao seu consumo, de acordo com uma pesquisa publicada nesta semana na revista médica "Lancet", quantificando o impacto global da bebida sobre a saúde humana.

Ainda de acordo com a pesquisa, coordenada por Jürgen Rehm, do Centro de Estudos sobre Vício e Saúde Mental de Toronto (Canadá), 5% dos anos de vida com algum tipo de de deficiência planeta afora também estão relacionados com o consumo de álcool. Quanto maior o consumo médio, maior o risco de problemas de saúde, e o efeito é ainda maior em populações pobres e marginalizadas.

Os pesquisadores também avaliam que, apesar dos aparentes efeitos benéficos para a saúde ligados ao consumo constante e moderado de álcool, o saldo da bebida é muito mais negativo do que positivo, em especial entre os homens.


Além de doenças diretamente relacionadas ao álcool, como problemas de fígado, alguns dos males ligados à bebida são tumores de boca, garganta, do cólon e do reto, de mama; depressão, derrames; além de acidentes de trânsito e violência, entre outros.


O consumo médio per capita no mundo é de 6,2 litros de etanol puro por ano, com valores próximos de 12 litros anuais na Europa, os campeões da bebedeira. Na antiga União Soviética o caso é o mais dramático: 15% das mortes estão associadas ao alcoolismo.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Estudo mostra dificuldade de abordar questão reprodutiva na terapia do câncer

Se os médicos recomendam que as mulheres providenciem perucas para a eventual queda de cabelos por conta da quimioterapia, por que não conversar sobre aspectos reprodutivos que podem estar envolvidos? Um levantamento realizado por um instituto de pesquisa da Flórida buscou avaliar como a questão é abordada durante as consultas. O resultado foi apresentado no Congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica.


Mais de 600 oncologistas responderam ao questionário. A resposta, em princípio foi positiva: 80% disseram abordar o tema durante o tratamento. Ainda assim, menos de 25% encaminham as pacientes em idade fértil para os especialistas em reprodução. O questionário era bastante detalhado, retratando 37 diferentes aspectos referentes aos médicos e o tratamento. Apesar de a ampla maioria discutir o tema com os pacientes, algumas barreiras puderam ser detectadas.


A principal dificuldade reportada pelos médicos é a conciliação entre a necessidade do início o mais rápido possível da quimioterapia e o encaminhamento do paciente a especialistas em reprodução e eventuais providências nesse campo. Apesar de existirem diretrizes de associações científicas com relação ao tema, os médicos americanos não as seguem totalmente. O índice de conhecimento sobre essas diretrizes é de apenas 38%.


Ainda existe outra barreira levantada pelos pesquisadores: é o custo envolvido nos tratamentos de preservação da fertilidade que irão se somar aos custos do próprio tratamento e suas conseqüências.


Outro trabalho apresentado no mesmo congresso constatou que não existe um padrão de cobertura para esses tratamentos pelas diferentes companhias seguradoras e planos de saúde. Mesmo no aspecto regulatório, nos Estados Unidos, as legislações são predominantemente estaduais, o que ainda dificulta ainda mais uma padronização de procedimentos pelos oncologistas e especialistas em reprodução.


A pesquisa mostra que os avanços nas oportunidades de tratamento quimioterápico traz novos desafios, como o da preservação da fertilidade dos pacientes mais jovens, não só mulheres como também homens. Devemos lembrar que não só os tumores podem atingir o aparelho reprodutivo diretamente como os tratamentos de tumores de outras localizações podem afetar a capacidade reprodutiva masculina.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Mais da metade das mortes anuais por câncer poderia ser evitada, diz relatório

Mais da metade das mortes por câncer poderia ser evitada a cada ano com mudanças nos hábitos de vida e medidas de prevenção e tratamento precoce. A conclusão é da American Cancer Society, que divulgou um estudo mostrando que 62% das mortes podem ser evitadas a cada ano.

Os diversos tipos de câncer tiram a vida de mais de 7 milhões de pessoas por ano em todo o mundo. Somente o câncer de pulmão mata, segundo a Organização Mundial da Saúde, 1,3 milhões de pessoas por ano. Esse número pode ser diminuído, e a prova disso é a constatação de que, após as campanhas educativas, aumento de taxas sobre o cigarro, leis controlando a propaganda e a diminuição do espaço para utilização do tabaco, o número de mortes relacionadas ao cigarro já diminuiu 25%.

O mesmo relatório aponta para o fato de que duzentas mil mortes a cada ano são devidas a casos de câncer associados à má nutrição, sedentarismo, obesidade e estilo de vida inadequado. O câncer de mama atingirá mais de 1 milhão de mulheres neste ano, no mundo todo. No Brasil serão 50 mil casos novos neste ano. Se o mesmo câncer de mama for diagnosticado precocemente, pode ser tratado e curado. Seguindo esse raciocínio, o cálculo dos pesquisadores passa a fazer sentido.

Avanço
A medicina tem avançado no estabelecimento de diretrizes de diagnóstico precoce e tratamento eficiente de vários tipos de tumores, como os de intestino e próstata, que são grandes matadores na sociedade moderna. O que precisamos é aplicar essas diretrizes de forma eficiente.

As campanhas governamentais têm um papel importante nesse esforço de prevenção e educação da população, porém as mudanças de comportamento e de hábitos de vida são fundamentais e dependem de esforço pessoal.

A partir desta sexta (29) vamos trazer informações direto do congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, que acaba de começar em Orlando.